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Boletim Aristoi - No. 02 - Dezembro, 2007
Caríssimos,
Eis mais uma edição do Boletim Aristoi, enviado mensalmente para todos os que estiverem cadastrados no meu site ou no site do Aristoi. Este boletim serve para mantê-los atualizados das novidades em nossos projetos; e fico feliz em avisá-los que estamos com um site novo em domínio próprio: http://www.aristoi.com.br
Estamos apenas começando: no próximo mês iremos expandir nosso site com novos recursos e mais conteúdo, e daremos detalhes do andamento do nosso projeto editorial.
Por enquanto, tenho um grande pedido a fazer aos assinantes: peço que respondam o questionário que está nesse links, para nos ajudar a planejar nossas atividades para o próximo ano:
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Para aqueles que acabaram de chegar, visitem nosso site e conheçam nosso projeto editorial:
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Nesta edição, trazemos uma tradução exclusiva de uma entrevista com o Pe. James Schall, um dos grandes promotores da educação liberal na atualidade. A tradução é de Silvio Grimaldo e encontra-se logo abaixo.
Até breve,
Lucas Mafaldo
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O Aristoi quer conhecê-lo
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Tradução do mês
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Sobre aprendizado e educação
Primeira parte da entrevista com o Pe. James V. Schall, Publicada em Ignatius Insight em 3 de agosto de 2005.
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Pe. James V. Schall, S.J. é professor de filosofia política na Georgetown University.
IgnatiusInsight.com: Quais filósofos, teólogos e pensadores fizeram sua cabeça quando jovem?
Pe. Schall: Isso depende do que você entende por "jovem". Quando já não se é tão jovem, as pessoas se deparam com uma porção de coisas e se perguntam como não as viram antes. Eu, por exemplo, nunca li nenhum livro infantil até já estar bastante crescidinho. Eu li as Crônicas de Nárnia e O Hobbit só aos 16 anos. Em que mundo eu vivia? E me recordo de ler um tal Josef Stalin no colégio, quando ele ainda era um aliado, durante a II Guerra Mundial. Essa leitura, ou a falta dela, não me diz nada, exceto o fato de que me faz lembrar de um período em que eu gostava muito das histórias de cachorro de James Oliver Curwood. Lembro-me de Kazan, filho do norte.
A sua pergunta, contudo, me lembra um capítulo do meu livro, On the Unseriousness of Human Affairs, intitulado "Sobre o mistério dos professores que eu nunca encontrei". Nós não somos exatamente produtos daquilo que lemos, ou que não lemos, como dizia. Eu não conhecia Platão, nem Tomás de Aquino, nem Chesterton, por exemplo. E provavelmente não saberia o que fazer com eles se os tivesse lido. Os professores nos apresentam várias coisas tidas como verdadeiras - até o ceticismo é apresentado como verdade. Então, nós temos que usar nossa própria cabeça para afirmar ou negar se o que estamos lendo ou está sendo ensinado é verdade ou não. Nós temos que ser filósofos iniciantes mesmo para ser leitores.
Então, nem professores nem os livros dos que pensaram e escreveram fazem de nós isso ou aquilo, a menos que, por outro lado, afirmemos ou neguemos o que lemos ou sabemos. Nesse sentido, devemos dizer que a verdade não pertence a ninguém, ou a todos, mas ninguém pode ser dono dela. É por isso que ela é "livre". Assim, pela leitura e ensino, na melhor das hipóteses, nós somos levados até a barranca do rio da inteligência, sempre fluente. Quando pulamos nesse rio, ou afundamos ou nadamos, mas sempre por conta própria. Nós já temos uma inteligência, que, enquanto inteligência, é nossa e não criada por nós. Essa inteligência não nos é dada para pensar o que bem quisermos, mas para pensar a verdade. Se o que desejamos não é a verdade, então não é a virtude que sustenta nossos desejos. Testes da verdade existem e devemos conhecê-los.
Contudo, há autores que realmente nos fazem acordar. Eu, na verdade, não lia muito até entrar na Ordem, quando eu já tinha mais de 20 anos. Até aquela época, de certo modo, eu não sabia o que havia para ler. Eu gosto de contar a história sobre quando estava no exército, logo após a II Guerra, alocado em Fort Belvoir, na Virgínia. Nós tinhamos muito tempo livre. Naquele tempo, eu já tinha feito um semestre na faculdade de Santa Clara, o que era suficiente para eu saber que devia estar lendo alguma coisa, não importava o quê.
Eu me lembro de um dia, na biblioteca da base - não era a biblioteca do Congresso, claro, mas ainda assim uma biblioteca, quando olhava as estantes e mais estantes de livros, pronto para ler alguma coisa, mas então, num lampejo da minha feliz ignorâcia, eu percebi que não sabia o que ler! O que eu deveria fazer numa biblioteca sem saber por onde comçar? Era como se eu estivesse lendo um cardápio em Chinês e fizesse o pedido aleatoriamente.
Essa experiência sugere o valor de ter bons professores, que, como diz Yves Simon, levam-nos a boas leituras, mesmo que inicialmente não saibamos o que são ou do que tratam. Simon também nos lembra que não podemos impedir o jovem filósofo de ler aquilo que não vale a pena, mesmo que recomendado por um professor famoso. Eu sou tomista o bastante, porém, para saber que devemos estar cientes do que é dito em livros que podem corromper a alma. O livro Ortodoxia, de Chesterton, é meu modelo desde que o li pela primeira vez. Foi onde ele observou que aquilo que o trouxe para a razão e para a fé não foram bons livros, mas aqueles cheios de erros. Ele tinha a inteligência para ver os erros como erros. Eu sempre admirei Chesterton precisamente porque ele podia ver a desordem do espírito, mesmo quando ela era popular e exigida pelas escolas.
Eu também costumo incentivar a simples descoberta de bons livros, seja nas bibliotecas, em sebos, seja on-line, por recomendação de amigos ou mesmo inimigos. Os estudantes já me deram muitos dos melhores livros que li, livros que frequentemente me eram ignorados antes de ganhá-los: foi assim que eu li Dandelion Wine, de Ray Bradbury e Love in the Western World, de Denins Rougemont. Essa abordagem não impede necessariamente que eu leia bobagens, às vezes, terríveis bobagens. Nem é possível ler apenas "bons" livros. Uma vez, quando estava na graduação, fiz uma disciplina com o famoso professor Rudolf Allers, na qual ele recomendava a leitura contínua de novelas, mesmo de novelas ruins. Em todo livro, dizia ele, se encontrará algo digno de nota, mesmo se ele for uma profunda desordem da alma.
IgnatiusInsight.com: Em seu website, Another Sort of Learning, o senhor diz "minha área acadêmica é filosofia política, uma disciplina em si mesma que fala sobre todas as coisas" . O senhor acredita que a educação hoje em dia é especializada demais? Existe a necessidade de uma abordagem mais interdisciplinar na educação?
Pe. Schall: Sinceramente, eu sou um pouco cético em relação ao que é chamado de "abordagem interdisciplinar". O que eu tenho visto a respeito, com demasiada freqüência, termina numa mistura de afirmações incompatíveis, nunca provendo as bases suficientes para o julgamento correto de coisa alguma. Não é à toa que deveríamos saber um pouco de lógica.
Quanto à observação sobre a filosofia política, eu tinha outra coisa em mente. Eu acho que, ao menos logicamente, se você começar corretamente em algum lugar, você poderá chegar em todo lugar. Você pode começar com artes, medicina, engenharia ou mesmo - sem tanta certeza - com sociologia ou estudos culturais e chegar em todo lugar. Você tem que conhecer os limites da sua disciplina. Tem que saber situar a disciplina com a qual começou naquilo que eu chamo de "Ordem das coisas". Você rapidamente perceberá que precisa saber mais do que sabe para saber o que já sabe.
A filosofia política, pela sua própria natureza, tem a vantagem de ser o que Aristóteles chamou de "a mais elevada das ciências práticas", mas ela não é, e deveria saber que não é, a mais elevada das ciências. E mesmo a mais elevada das ciências de Aristóteles, a mestafísica, tem suas limitações e mantém-se aberta para as respostas da Revelação. Como o padre Charles N. R. McCoy, um dos meus grandes professores, costumava dizer, Maquiavel confundia arte e prudência, achava que política era arte e não prudência. Como os artistas sabem melhor o que estão fazendo quando eles pintam, compõem, esculpem, da mesma forma os políticos precisam saber precisamente o que é ser prudente, conhecer a correta ordem das coisas a ser feita. Ambos precisam conhecer a diferença entre as coisas que poderiam ser de outro modo e as que não o podem, o que é, em essência, o caminho da arte e da política para a metafísica.
Estou inclinado a pensar que a educação não é tão excessivamente especializada quanto é excessivamente eclética. Eu admiro faculdades em que o estudante pode graduar-se em teologia e completar sua grade com um curso sobre o Islam e outro sobre Ética, Cristianismo e vise-e-versa. Ao mesmo tempo em que um estudante escolhe um curso sobre Literatura Gay e Ben Jonson no departamento de Inglês, ele estuda a história do Paraguai e a Dinastia Ming no departamento de História, ou enquanto freqüenta um curso de Astronomia básica ou biologia e cálculo. Eu creio que tal sistema é bem abrangente, mas parece-me essencialmente inútil. Estou constantemente aconselhando meus alunos: "não se especializem em problemas atuais", uma grande tentação nas universidades de Washington. O que é atual durante os quatro anos de uma faculdade estará grosseiramente fora de moda quando o aluno sair da faculdade.
Recentemente, depois de ler e reler Platão, eu percebi algo do qual eu já suspeitava, mas nunca tinha me dado conta, a saber: é possível aprender ou ser exposto a certas coisas muito cedo. Esse é um problema crescente nos chamados "bons colégios". Existe uma discussão sobre a necessidade de mais um ano ao final do ensino médio e outro no início da faculdade. Encontramos cursos de filosofia nos colégios e nos primeiros anos de faculdade. Platão, porém, no sétimo livro da República, nos adverte dos riscos de expor muito cedo os jóvens às coisas mais elevadas.
O famoso ensaio de Dorothy Sayer, "As ferramentas perdidas do saber", nos lembra da ordem adequada da educação. Nós negligenciamos a memorização, não lemos os grandes eventos que movem as almas, como Waugh satirizou nas primeiras páginas de "Reviver o passado em Brideshead". Podemos aprender a falar e escrever bem e corretamente na escola, mas para aprender filosofia, pensava Platão, precisamos de experiência e tempo. Eu começo a achar que o que realmente estamos fazendo na graduação (e eu amo ensinar alunos de graduação) é apontar-lhes coisas que eles só entenderão realmente quando forem mais velhos e mais experientes.
Mas, claro, o que a filosofia política também aponta é a importância da virtude da qual depende a verdadeira leitura das coisas mais elevadas. E o problema com as universidades de hoje é que elas não são mais escolas de virtudes; com frequência, na real vida acadêmica, são justamente o oposto. Somos cristãos, claro, portanto temos um modo de confrontar até mesmo a nossa confessa falta de virtude, mas hoje isso é praticamente um privilégio particular. Estou ciente da profundidade da desordem em nossas almas.
Recentemente, eu estava relendo O Homem Eterno, de Chesterton. Eu sempre cito em sala a frase de Nietzsche (ele é um dos meus favoritos, aliás): "o último cristão morreu na cruz". Esse gracejo foi pensado como uma crítica à falta de virtude dos cristãos. Nietzsche queria dizer que ele seria um crente se os próprios cristãos acreditassem em suas ações. Aparentemente ele esqueceu do famoso dito, ex bono, sequitur et bonum et malum, ou seja, é perfeitamente possível para alguém testemunhar o bom e fazer o mal, e vice-versa.
Chesterton, que começou a escrever assim que Nietzsche morreu, em 1900, tem a resposta perfeita para essa visão: "Foi o mundo anticlerical e agnóstico que estava sempre profetizando o advento da paz universal; é esse mundo que ficou, ou deveria ter ficado, envergonhado e perplexo com o advento da guerra universal. Quanto à visão geral de que a Igreja foi desacredita pela Guerra - eles poderiam dizer que a Arca de Noé foi desacreditada pelo Dilúvio. Quando o mundo vai mal, se prova que a Igreja está certa. A Igreja está justificada não porque seus filhos não pecam, mas justamente porque pecam" . O cristianismo nunca previu um tempo nesse mundo em que o homem não pecaria e, portanto, não precisaria das graças do arrependimento e do perdão. Esse entendimento é o único fundamento sólido para todas as teorias realistas da natureza humana e do que esperar dela. Ele tem, de fato, origens divinas.
Mas a filosofia política como tal é um assunto central. Aproximadamente cinco dos meus livros tratam diretamente do assunto: 1) Christianity and Politics (St. Paul Editions), 2) The Politics of Heaven and Hell: Christian Themes from Classical, Medieval, and Modern Political Philosophy (University Press of America), 3) Reason, Revelation, and the Foundations of Political Philosophy (Louisiana State University Press), 4) At the Limits of Political Philosophy: From 'Brilliant Errors" to Things of Uncommon Importance (Catholic University of America Press), e 5) Roman Catholic Political Philosophy (Lexington Books).
A maioria dos outros livros toca nesse assunto assim como em outras questões mais gerais. What Is God Like?, Human Dignity and Human Numbers, The Distinctiveness of Christianity, e Does Catholicism Still Exist?, assim como meu primeiro livro, Redeeming the Time, lançando questões sobre como tudo isso se encaixa.
IgnatiusInsight.com: Esse ano faz 40 anos que o senhor leciona na universidade, nessas 4 décadas de ensino, quais mudanças significativas ocorreram no ensino superior? Em que medida o estudante médio de hoje é diferente dos estudantes médios de 30 ou 40 anos atrás?
Pe. Schall: Eu sou muito desconfiado com essa pergunta. Eu vejo, de fato, pouca diferença entre os estudantes de 19 ou 22 anos que eu encontro hoje e aqueles que eu encontrei 40 anos atrás, ou do jovem de 19 anos que eu era, ou que Santo Agostinho era. Esse falatório sobre 'universidades melhores' ou 'melhores estudantes' é apenas isso, um falatório. O que você vê quando entra dentro de uma sala é um grupo de vários estudantes que aprenderam a ler e escrever. Você sabe que muitos provavelmente têm uma bagagem moral que sobrecarrega suas almas. Mas você tem uma certa confiança na verdade em si mesma, mesmo entre os francamente fracos. Você tem que lembrar que ela não é a sua verdade nem a sua alma, embora seja alma. Você pode levar os estudantes a Platão ou Cícero, Santo Agostinho ou Tomás de Aquino, ou mesmo a Maquiavel ou Rousseau, mas eles têm que ver por si próprios, mesmo ver que apesar do erro ser erro, tem alguma plausibilidade. Não há de fato erro algum que não se estruture em uma verdade real, em uma que vale a pena ser conhecida, até mesmo mais vividamente porque foi encontrada primeiro na falsidade.
Eu sou um privilegiado, como mencionei acima, por ter a liberdade de ensinar sobre livros que pensava, depois de muita experiência, trazer o fardo da sabedoria e da reflexão permanente para almas que estavam apenas começando a grande aventura da conquista da verdade e o encontro com a bondade e a graça. De certo modo, eu mesmo tive que descobrir esses livros, familiarizar-me com eles. Eu só pude fazer isso porque eu tive gerações de estudantes que pacientemente me deixaram ler e reler com eles A República ou A Política ou Santo Agostinho ou Nietzsche. Mas essa não é simplesmente uma lista dos "grandes livros", sobre os quais, como programa acadêmico, sou cético, a menos que seja feito como na Saint John's ou no Thomas Aquinas College.
Os grandes pensadores, como Strauss sabiamente disse, contradizem uns aos outros, de modo que a conquista da verdade deve sempre estar ciente da aventura de descobrir como grandes pensadores deixaram passar pontos fundamentais. Nesse sentido, nos últimos tempos, comecei a reler The Unitiy of Philosophical Experience, de Etienne Gilson. Ele diz que nós somos livres para escolher nossos primeiros princípios, mas uma vez escolhidos, não podemos mais pensar como desejamos, e sim como podemos, e que se não virmos o perigo em nossos princípios, algum discípulo, anos depois, o verá. É por isso que Strauss chamou a história da filosofia política uma mera soma de "erros brilhantes", uma vez que os elementos da verdade são eliminados da disciplina.
Mas sua pergunta é sobre estudantes. Minha experiência é bastante clara. Se um estudante deseja pacientemente ler e reler comigo grandes livros e livros que digam a verdade a sua maneira, sua alma será atraída, ficará fascinada. Ele começará a questionar a verdade das coisas. Os estudantes vivem numa cultura em que a desordem da alma é muito próxima da ordem pública das coisas e das suas vidas diárias. Praticamente a única esperança de escapar dessa desordem intelectual implícita é encontrar, nas palavras de Voegelin, algum fundamento na ordem, no ser, o que eles podem fazer no exercício platônico de construir em suas próprias almas uma cidade em palavras ou espírito, que os permitam ver sua verdadeira cidade e sua desordem. Eles encontrarão essa cidade em palavras, creio eu, na boa leitura, mas não só isso. Suas vidas devem levar em conta suas leituras, e isso exige disciplina e um começo de ordem na alma.
Mas como eu disse, todo estudante em sala é mais jovem que os alunos de filosofia de Platão. O que você pode lhes dar é um senso de que há algo mais lá fora. Eles não saberão por anos o que é isso em todas as suas dimensões, mas nós começamos com pequenos passos. Não há dúvida, como me disse certa vez o padre Fessio, de que o acaso de encontrar um bom livro transforma almas. Muito mais faz a leitura de uma série de livros que dispõem a ordem e a desordem de um modo que, para usar a tradição aristotélica, faça sentido.
IgnatiusInsight.com: Seguindo a questão anterior, qual é a perspectiva ou visão de mundo comum da maioria dos estudantes universitários de hoje? Qual é a força e a fraqueza da sua constituição intelectual?
Pe. Schall: Gosto muito de citar uma observação de Allan Bloom no seu Closing of American Mind, que qualquer professor pode estar relativamente certo de que, enquanto caminha na sala de aula, a maioria dos alunos será ou pensará que é relativista. Eles acharão que devem acreditar que nenhuma verdade é possível. Eles vão pensar que o cargo, por mais autocontraditório que seja, é a verdade pela qual vivem e pela qual eles agem. Contudo, alguém pode ter, ao menos eu tenho, um bom número de estudantes que reconhecem, ou vêm a reconhecer, a dubiedade desse fundo cultural. Raramente tenho estudantes que não conseguem ler e escrever bem. A correção gramática e ortográfica na maior parte das vezes elimina dos trabalhos os erros clássicos, aos quais até os professores estão sujeitos com frequência.
Educação não é matéria de estudo, como observou Chesterton. É um processo pelo qual nós chegamos à verdade das coisas, que é o real objeto da educação. Falando corretamente, nós não vamos à faculdade para adquirir uma educação. Nós vamos para conhecer a verdade sobre algo, sobre todas as coisas, embora nós possamos precisar de mais que uma mera universidade para conhecer toda a verdade das coisas.
O grande dominicano polonês, J. M. Bochenski, no seu livro realmente útil que deveria ser reimpresso, Filosofia: uma introdução , fala sobre a ordem envolvida na construção de uma ponte. Ele conclui que deve haver uma conformidade entre a mente do construtor e as coisas que são colocadas na ponte, em sua sequência própria: a lei da mente e a lei das coisas devem corresponder. Se algum erro é cometido na lei das pontes, a construção ruirá, não importa quão grandiosa era a idéia. O mesmo é verdadeiro conosco. Precisamos aprender a lei do nosso próprio ser, algo que simplesmente não criamos a partir de nós mesmos. Nós já somos nós mesmos, mas ainda é necessário saber o quê nos ordena. Ainda devemos escolher viver o que nós somos.
Um livro útil para conhecer a respeito disso é o de outro dominicano, A. D. Sertillanges, chamado A vida intelectual. Esse livro é pertinente a pergunta sobre a "constituição intelectual" dos estudantes. Os alunos entram na universidade por meio de vários testes e preenchendo vários relatórios de serviço. Eles passam a vida escrevendo currículos sobre si mesmos. Durante os anos de faculdade, eles provam que são únicos ou diferentes aumentando esse currículo. Está certo, eu penso, mas isso sempre me parece um pouco esquisito.
Os estudantes vêm para a faculdade pensando no que eles "serão", quando eles querem dizer o que "farão". Eles já são o que serão. Se eles não sabem o que são, aquilo que fazem será definitivamente um problema para eles. Seja como for, o livro de Sertillanges dirigi-se para o problema de como se adaptar realisticamente às coisas mais elevadas por toda a vida. É acima de tudo um livro sobre disciplina, sobre o governo de si mesmo, segundo a frase de Aristóteles.
Há uma boa dose de caridade secularizada em nossa cultura. É por isso que todo mundo tem que se unir ao Corpo de Paz ou a alguma atividade da mesma sorte. Uma vez que isso é facilmente mal empregado, nós vemos estudantes se "voluntariando" para trabalhar na Planned Parenthood ou algum movimento ecológico como se isso fosse um serviço e não uma ideologia. Na maior parte das vezes é a simples participação na desordem. A única resposta para a má caridade, é claro, é a boa caridade. E caridade não é justiça.
Provavelmente nada é mais confuso para um estudante hoje em dia do que a diferença entre justiça e caridade, não importando como cada uma seja chamada. A noção de justiça ou virtude social tomou o lugar da noção de governo de si próprio, ou de virtude pessoal. E nada é mais infundado que as noções de justiça social, que identifica o valor de alguém com a causa ou movimento que ele segue, seja político ou qualquer outro. Eu duvido que exista um obstáculo mais difícil para o estudante transpor, que essa pressão de fazer da universidade um braço de alguma noção de justiça social. É por isso que a filosofia deve ser estudada por si mesma e também porque ela está em crise, como observou sabiamente João Paulo II em Fides et Ratio, quando ela já não sabia mais o que ela mesmo era.
Tradução: Silvio Grimaldo