Ao falar sobre educação liberal para um público que não conhece esta idéia, uma objeção que costumo ouvir com freqüencia é algo nas seguintes linhas: “mas para quê serve isto?”. Ou seja, a pergunta é pela utilidade da educação liberal.
A pergunta é bastante razoável, pois, dado que este é um empreendimento que tomará muito dos recursos de uma pessoa – incluindo seu recurso mais valioso e escasso: o tempo – ela tem todo o direito de saber que frutos irá colher do seu tempo e esforço investidos.
Uma resposta adequada para este pergunta, no entanto, não é nada simples, pois podemos seguir dois caminhos inteiramente diferentes: mostrar em quê a educação liberal é útil ou mostrar porque a utilidade não deve ser considerada o valor mais alto em nossas decisões. Neste artigo, percorremos o segundo caminho, deixando o primeiro para outro momento.
O que é a utilidade?
Vamos, portanto, primeiramente nos certificar que entendemos bem o que é a idéia de utilidade.
Quando dizemos que uma coisa é útil, estamos querendo dizer que ela é um meio eficiente de se alcançar um determinado objetivo, o qual varia de acordo com o objeto em questão.
O garfo, portanto, é útil porque ele é um meio eficiente para levar a comida à boca. O carro é útil porque ele é um meio adequado para nos locomovermos nas estradas. O remédio é útil porque serve para curar doenças.
A superioridade dos fins sobre os meios
O que está implícito nesta descrição – e que freqüentemente esquecemos – é que tudo o que é útil, por definição, não possui nenhuma importância em si mesmo, pois todo seu valor reside no objeto de sua utilidade. Em outras palavras: o garfo é tão importante quanto for a importância do ato de levar comida à boca; o remédio é tão importante quanto a cura que ele promove, etc.
Ou seja, “ser útil” é ser um instrumento capaz de atingir determinado objetivo; e o valor deste instrumento vai depender do valor do objetivo. O instrumento, em si mesmo, não vale nada; o objetivo, este sim vale tudo.
Esta distinção entre instrumento e objetivo – ou, em termos mais precisos, entre meio e fim - é um dos fundamentos essenciais da filosofia clássica... e do bom senso.
O que nem sempre se percebe é que, por definição, os fins são mais importantes que os meios. Se você precisa atingir um determinado objetivo poderá se valer dos diferentes meios que estejam disponíveis. Poderá trocar o “objeto útil A” pelo “objeto útil B” em um piscar de olhos, sem remorso algum, de acordo com a capacidade de cada um em lhe levar ao fim almejado. A mudança de fins, no entanto, é mais complicada.
Por isso, quando você sai de casa para enviar uma carta pelo correio, pouco lhe importa a agência que irá utilizar (que é o seu meio), mas você voltará profundamente chateado se não conseguir enviar a cara (que é o seu fim).
A superioridade dos fins, aliás, já estava implícita na própria linguagem da pergunta que deu início a este artigo. Quando dizemos que “isto serve para aquilo”, estamos assinalando a condição de servidão da ferramenta ao seu objetivo; ou seja, os meios são servos dos fins
Aquilo que não é meio
Se pararmos um pouco para pensar, veremos que a nossa vida é um contínuo encadeamento de fins e meios, onde muitas vezes algo que era meio se torna um fim e vice-versa.
Conseguir um emprego, por exemplo, é o fim que leva muitas pessoas a cursarem uma universidade. No entanto, o emprego logo se mostra um meio de ganhar dinheiro; o que, por sua vez, é um meio de pagar o aluguel; o que, por sua vez, é um meio de ter um lugar para morar; o que... Mas onde isto vai parar?
Obviamente, isto precisa parar em algum lugar. Existem certas coisas que essencialmente não são meios para mais nada, pois são fins em si mesmas.
Antes que o leitor ache que estou sendo abstrato demais, darei um exemplo de um fim em si mesmo que ele experimenta diariamente: o prazer. Podemos dizer que comemos chocolate porque ele é um meio para termos prazer, mas o prazer é um meio para quê?
Algum leitor talvez possa argumentar que o prazer também tem seus efeitos secundários (como a liberação de certas substâncias químicas, por exemplo), mas, evidentemente, não é por qualquer objetivo secundário que buscamos o prazer, mas sim, pelo prazer em si mesmo.
O prazer, no entanto, não é o único valor que existe em si mesmo. A beleza é outro exemplo. Quando olhamos uma bela paisagem, nós o fazemos pelo próprio ato de contemplá-la, e não por um outro objetivo secundário.
A justiça é também outro exemplo. Muitas vezes fazemos o que é certo, não apenas por considerações práticas (como evitar ser preso), mas sim pelo princípio em si mesmo, mesmo quando contra ele vai contra toda e qualquer consideração prática – como é o caso dos mártires e dissidentes políticos, que sacrificam todos os meios para não abrir mão dos fins que lhes são caros.
Portanto, embora nossa vida, de fato, pareça ser essa conturbada constelação de fins e meios intercambiáveis, por trás de toda esta alucinante transformação há uma série de princípios que se sustentam por si mesmos e que permanecem inabaláveis por toda nossa existência. Estes princípios perenes são aquilo que Russel Kirk, de maneira muito apropriada, chamava de “as coisas permanentes”.
O que isto tudo tem a ver com educação liberal?
Evidentemente, toda educação é necessariamente um meio para algo; ela é um instrumento que nos levará para um fim. A diferença entre os tipos de educação está entre os tipos de fins que ela almeja alcançar.
A educação profissionalizante é o meio através do qual se adquire as habilidades para desempenhar um papel profissional. A educação científica é a preparação para a pesquisa em um ramo da ciência. Mas qual é o fim da educação liberal?
A educação liberal visa, justamente, levar o aluno a conviver com “as coisas permanentes”. Trata-se de meditar sobre as produções do espírito humano e contemplar as idéias que parecem constituir um aspecto permanente da experiência humana.
Por isso, não cabe perguntar se existe um mercado para pessoas formadas em educação liberal, pois o mercado existe justamente para que as pessoas possam negociar habilidades técnicas (úteis, portanto), as quais não fazem parte do campo da educação liberal. A função da educação liberal não é formar técnicos (o que seria uma transmissão de meios), mas sim, enriquecer o espírito dos estudantes através do contato com as coisas permanentes (o que é uma transmissão de fins). Enquanto o ensino profissionalizante transmite algo útil (um meio para alcançar um objetivo), a educação liberal transmite algo que é um fim em si mesmo: o contato com as "coisas permanentes".
Portanto, respondendo à pergunta que deu início a este artigo: a educação liberal serve para transmitir ao aluno uma impressão das coisas permanentes, daqueles princípios que possuem seu valor em si mesmo.
E, caso o leitor pergunte então para quê serve as coisas permanentes, será preciso lhe responder que elas não servem para nada, pois é todo o resto que serve a elas.