Numa tarde do último outono, sentei por longas horas com um conhecido europeu, enquanto ele expunha uma doutrina político-econômica que parecia ser sólida como uma noz e na qual eu não conseguia achar defeito algum. Por fim ele me disse, com muita gravidade: "Eu tenho uma missão para com as massas. Sinto que sou chamado para ser ouvido pelo povo. Devotarei o resto de minha vida a espalhar amplamente minha doutrina entre a população. O que você acha?"
Esta é, em qualquer caso, uma pergunta desconfortável, e mais ainda nessas circunstâncias, por que meu conhecido é um homem muito culto, uma das três ou quatro mentes de primeira classe que a Europa produziu em sua geração; e naturalmente eu, sendo um dos incultos, estava disposto a considerar a menor de suas palavras com uma reverência beirando o temor. Ainda assim, eu pensei, nem mesmo a melhor das mentes pode saber tudo, e eu estava certo de que ele não tivera as mesmas oportunidades que eu para observar as massas da humanidade, e que, portanto, eu as conhecia melhor do que ele. Então, juntei coragem para dizer que esta não era sua missão. E que fazia bem em tirar essa idéia da cabeça de uma vez; ele descobriria que as massas não dariam a mínima para sua doutrina, e menos ainda para ele mesmo, já que em tais circunstâncias o favorito do povo é geralmente algum Barrabás. Eu cheguei até mesmo a dizer (ele é judeu) que a sua idéia parecia mostrar que não estava bem inteirado da literatura de seu povo. Ele sorriu da minha pilhéria, e perguntou o que eu queria dizer com ela; então, me referi à história do profeta Isaías.